sábado, Janeiro 21, 2012

Resina do Pinheiro Bravo,

Lembram-se da extracção?

A produção de resina teve um papel importante na economia da nossa terra ate aos anos 70 quando os fogos arrasaram os pinhais dos termos da Moura Morta e mesmo da freguesia das Lavegadas.

Quase todas as casas tinham os seus pinhais sangrados para a colha da resina, produto que dava algum rendimento, havendo alguns resineiros residentes que trabalham para a Fabrica de resina dos Portugais da Portelinha em Vale de Matouco.

Embora a colheita de resina ainda hoje continue nalguns locaisa, atingiu o ponto máximo entre 1920 e 1970. É difícil obter uma ideia da indústria que existia antes de 1920 mas sabemos que o maior aumento de produção de resina aconteceu aquando da criação do Pinhal Interior Norte. Esta área florestada foi sistematicamente plantada com pinheiros-bravos (Pinus pinaster) entre 1900 e 1950.

A resina do pinheiro é um líquido viscoso que é excretado pelo pinheiro para selar e proteger qualquer ferida no pinheiro. É de uma cor amarelo acastanhado e no contacto com o ar torna-se duro e forma uma crosta quebradiça e pegajosa. Resina fossilizada é conhecida como âmbar e é considerada uma pedra semi-preciosa.

A resina é principalmente utilizada para a produção de aguarrás e pês. A aguarrás é utilizada para diluir e dissolver tintas e vernizes, em graxa de sapato e lacre. É também juntada a muitos produtos de limpeza devido as suas propriedades anti-sépticas e o seu perfume a pinheiro. O pês é utilizado em cola de papel e na fabricação de sabão, vernizes e tintas e talvez a utilização mais conhecida seja para os arcos de instrumentos musicais de corda como o violino. A vulgar resina de pinheiro era no passado utilizada nas embarcações de vela para as impermeabilizar. Também tem propriedades medicinais: sabe-se que é anti -patogénica (isto é a função principal para o pinheiro) e foi durante anos utilizada para esfoladelas e feridas, como tratamento contra piolhos, misturada com gordura animal para massajar no peito, ou para inalar contra doenças nasais e de garganta. No passado era aplicada em cubos de açúcar ou em mel como tratamento contra parasitas intestinais e remédio geral para tudo. É também um estimulante, um diurético, um adstringente e um anti-espasmódico. (Porém deve-se tomar em conta que o seu vapor pode queimar a pele e os olhos, prejudicar os pulmões e o sistema nervoso central quando inalada e causa insuficiências renais quando ingerida).

Um pinheiro de tamanho médio pode produzir 3-4kg de resina por ano. Os pinheiros produzem a melhor qualidade de resina quando estão em crescimento, por isso, o volume da colheita desce entre Abril e Setembro.

Lembro-me quando na minha juventude havia dois resineiros na Moura Morta o Jaime da Meda e o Ti Albino do Cimo da Rua, que removiam parte da casca na base do pinheiro, colocava peças de metal no pinheiro para direccionar o fluxo da resina para os cacos da resina ( de barro e mais tarde de plástico). Depois apanhavam a resina com uma colher para um caneco ou gamela.

Depois de rasparem a resina endurecida e cristalizada, a área era coberta com uma solução de ácido que estimulava a sangra da resina. Em cada ano era feito mais uma bica mais acima no tronco do pinheiro A resina era armazenada em velhas barricas de madeira colocadas estrategicamente nas estradas dos pinhais. Quando cheias eram transportadas por carros de bois ate à Barroca por baixo da figueira da Ti Adelaide onde hoje esta a Paragem do Autocarro. Era aí que depois vinha a camioneta do Portugal para carregar as barricas para a fabrica na Portelinha no ramal para o Vale de Matouco.

A resina era despejada na ‘barca’ (grande depósito de resina). O processo passava pelo aquecimento da resina até ao estado líquido e a filtração de todas as partículas de impureza do material. Antigamente, a resina era aquecida através de um fogo aberto, numa grande caldeira selada com uma serpentina de condensação, muito parecido com um alambique de aguardente. A aguarrás condensa, deixando o pês líquido no fundo da caldeira de destilação. O pês produzido desta forma tem uma cor vermelho acastanhado. Modernas técnicas de destilação utilizam vapor e produzem um pês de uma qualidade muito superior de cor amarelo dourado. Após a separação da aguarrás e do pês, o pês líquido é deitado em tabuleiros metálicos para arrefecer e endurecer. Quando está duro, é manualmente partido com um bastão de madeira em peças pequenas, que a seguir são ensacados e estão agora prontas para a distribuição.

Hoje ainda existem meia duzia de velhos pinheiros na Moura Morta que nunca mais foram sangrados, e que apresentam ainda as cicatrizes de décadas de sangria. Ainda se podem encontrar restos dos cacos que antes se utilizavam para a colheita da resina. Nalgumas casas , a colheita de resina era o rendimento principal e muitas vezes coexistia com a venda de milho, batatas e vinho. É um facto que florestas com activa produção de resina tinham uma menor incidência de fogos florestais, provavelmente porque a comunidade estava mais próxima e envolvida na exploração e conservação dos pinhais.

A resina proveniente de Portugal e outros países mediterrâneos é considerada ser de uma qualidade de topo, mas devido aos custos de mão-de-obra, a produção mudou-se durante as últimas décadas para países em vias de desenvolvimento.

Publicado anteriormente em 1.12.2010

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4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Sera QUE NESTA ALDAIA
UM FLANO AMDA A ROUBAR OS PINHEIROS.
E para os rezinsr , ou para destruir o mudatudo.

22:31:00  
Blogger saomartinhoaconversa said...

Excelente artigo. Rectifico apenas que a Fábrica de Rasina de Alfredo Martins Portugal, transferida da Ponte de Mucela em 1947 era situada na Portelinha. Para a Ponte da Mucela veio ainda transferida pelo mesmo sr. Portugal da Catraia do Farropo. É que antigamente estes Alvarás industriais eram bastante difíceis de obter...

22:07:00  
Anonymous Anónimo said...

gostei imensamente do artigo. Descobri ouso dessa resina por acaso em site de arquearia, quanto ao uso com mistura de carvão e fezes de esquilo;Resulta em uma cola de grande poder de aderência. usa-se para colar chifre de búfalo a madeira, na montagem de arcos chineses e coreanos, coisa bem difícil de fazer pela tração que as peças sofrem ao serem retesadas.Muito bom seu artigo, esclareceu vários pontos para mim,pensei que era "coisa que só asíatico é que sabiam.Grato
Valdoir Tosta

18:38:00  
Anonymous Anónimo said...

É interessante saber-se que na Ponte da Mucela, onde o Sr. Adriano Lucas recuperou uma casa, junto à presa que la existia, tinha havido uma fabrica de resina e que precedeu a que se conheceu na Portelinha em S. Marinho da Cortiça.
Aquela chamine é então uma reliquia a preservar como patrimonio industrial da Freguesia das Lavegadas. Pena que ninguem tente recuperar ou " mostrar" um forno da cal, que os houve, pelo menos 2 e as moendas, os lagares e os moinhos de ribeiro. Ate mesmo os alambiques que existiram. Estas industrias ate à 2º Guerra Mundial, eram obrigadas a ter alvara proprio da industria em que estavam inseridos.
Ja na altura os isqueiros tinham licença,as carroças os carros de bois e as bicicletas, tinham registo de matricula....e pagava-se bem por isso.
Ate o braçal se pagava, que era um imposto por se andar na rua. E esta, não sabiam?
Quem não pudesse pagar o braçal, dava um dia de trabalho para a comunidade, para arranjarem estradas e caminhos.

15:03:00  

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